Estressada por conta de uma crise afetiva, a publicitária Júlia, produtora de comerciais, resolve gravar um DVD para deixar ao marido, antes de se matar. Empenhada nessa tarefa, vive aventuras hilariantes enquanto é interrompida por divertidas situações corriqueiras na sala de sua casa – totalmente automatizada. Assinante da hipotética revista Saúde Mental, que publicou matéria e inseriu por engano seu telefone como sendo da psicanalista autora do artigo, a personagem é atormentada por telefonemas a todo momento.
Este é o mote da inteligente comédia Um Dia (Quase) Igual Aos Outros, do italiano Dario Fo (Prêmio Nobel) e Franca Rame, que voltou em cartaz no Teatro Bibi Ferreira, dia 31 de julho, sexta-feira, com o patrocínio da Pirelli por meio da lei estadual 12.268 de 20/02/2006, do Proac – Programa de Ação Cultural. Com interpretação da atriz Débora Duboc, profissional de sólida carreira no teatro e no cinema, e direção de Neyde Veneziano, especialista no teatro dos dois autores italianos e com pesquisa no cômico e no popular, a montagem de 60 minutos entretém o público com humor cortante e temas que afligem o mundo contemporâneo, como os conflitos das mulheres independentes e modernas. ”Essa volta é muito esperada, pois foi uma delícia fazer temporada com casa lotada”, explica Débora. “Não é todo dia que temos a felicidade de ter um espetáculo que agrada a todos. A peça foi celebrada por público e critica, e isso é fruto dessa dramaturgia especial desses autores”, completa.
O cenário é um apartamento, com sistema multimídia e “wireless”, equipamentos controlados por computadores quase humanos, onde vive Júlia, a bem-sucedida produtora, estressada pelo fracasso afetivo, que decide se suicidar. Ao invés de deixar uma carta, decide produzir um DVD com o intuito de culpar o ex-marido. Mas tudo fica mais difícil quando começa a receber ligações de mulheres desesperadas por conselhos, tudo porque seu telefone foi publicado por engano na revista Saúde Mental, como sendo o fone de uma terapeuta que trouxe uma técnica revolucionário do oriente.
Na montagem, Débora Duboc contracena com o cenário-personagem, que conta com a alta tecnologia dessa casa multimídia, um loft, espécie de estúdio onde tudo se mexe e interfere. Ao bater palmas, a luz se acende; a outro simples comando de voz, a tv é ligada automaticamente. A tv, o telão e o telefone não são apenas elementos de decoração, mas personagens que agem e interagem com a personagem.
O cineasta Toni Venturi assina a direção audiovisual, que conta com a participação virtual de Claudia Mello, Grace Gianloukas, Eliana Rocha, Elias Andreato, Leonardo Medeiros, Marcelo Médici, Marco Luque, Marcio Seixas e Viviane Pasmanter. Thiago Adorno e Fernando Fecchio estão em cena fazendo uma dupla de assaltantes, uma homenagem que Fo faz aos palhaços de picadeiro. “Estou muito feliz de juntar essa equipe talentosa. Pessoas com quem adoraria fazer qualquer projeto e tive o privilégio de e me encontrar no palco mesmo que virtualmente, e ser dirigida por Neyde Veneziano, que foi generosa em me oferecer todo o seu conhecimento. O processo de criação foi diferente, é uma loucura. Tenho que ser extremamente rigorosa e ao mesmo tempo me lançar ao momento, e a comédia precisa disso,” afirma Débora.
A tragédia vem revestida de ironia com situações hilárias e surreais. Para o italiano Dario Fo, o cômico tem sempre por trás uma situação trágica. E é rindo dessa tragédia que podemos criticar as injustiças. Para Débora Duboc,a solidão da mulher vai além do riso fácil e debochado, porque o autor a tornou absolutamente humana e verdadeira. “A Júlia representa bem a mulher do mundo de hoje, é extremamente contemporânea, contudo consegue não ser caricata, isso graças ao texto. O Dario consegue trazer humanidade para essa mulher.”
O encontro com Dario Fo e Franca Rame
A diretora Neyde Veneziano encontrou o italiano Dario Fo e sua mulher Franca Rame, atriz e ex-senadora da República Italiana. Durante projeto de pesquisa que realizou em Milão nos anos de 2000 e 2001, fazendo seu pós-doutorado (com bolsa Fapesp). De volta ao Brasil, defendeu na USP tese de Livre Docência sobre o mesmo tema e publicou o único livro em língua portuguesa sobre Dario Fo, A Cena de Dario Fo: o exercício da imaginação (Conex, 2002).
Segundo Neyde, “foi colhendo procedimentos na antiga tradição popular, vasculhando os baús dos teatros mambembes da família Rame e estudando os jograis de medievo italiano que Dario Fo inaugurou a cena moderna. Para isso, até hoje vive intensamente a atualidade, com seus problemas sociais, suas tragédias cotidianas e com todo o aparato tecnológico também”.
”Dario desenha o cenário e ali coloca os temas, as ações, os personagens. Mesmo quando não há um cenário concreto e aparente, ele o cria na imaginação da platéia, fazendo-a enxergar pedras, catedrais, árvores caídas, densas florestas, guerras sangrentas. Sua onomatopéia transforma os sons em objetos visíveis. Seus gestos descrevem ações que vão do cotidiano ao mais nobre ato heróico”, acrescenta a diretora.
Ao dividir com a mulher, a atriz Franca Rame, a autoria do texto, Dario não está lhe prestando uma homenagem. Ele arquiteta, ela desenvolve novas situações e acrescenta milhares de sutilezas que deixam o texto espetacularmente humano.
Em Um Dia (Quase) Igual aos Outros, Débora Duboc completa as exigências desta dramaturgia, pois Franca Rame recomendou a Neyde que encontrasse a atriz ideal, uma atriz capaz de passar, sem exageros, a técnica que estaria por trás desta cena “aparentemente” tão real. A diretora conta que, apesar do aparato tecnológico, o texto privilegia o trabalho da atriz. “Essa é uma regra de Dario Fo. Vi como ele trabalha e uso muito a metodologia dele para tirar o riso, o tempo certo da comédia”, explica. Para Veneziano, o texto é universal, por isso cria logo uma empatia com o público. “A Júlia é uma mulher solitária numa casa cheia de tecnologia, e a solidão é um problema universal. O texto é calcado nos truques do velho teatro, mas o formato é muito moderno, por isso dialoga com a nossa platéia.” |